Racismo: como falo para minha filha que ela é preta?

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Nas últimas semanas acompanhamos com toda indignação o caso do empresário Crispin Terral, homem negro que enfrentou o racismo de forma violenta no banco público Caixa Economia Federal. Sabemos que toda forma de racismo é violenta e letal, entretanto temos aqui no Brasil o método mais violento do mundo: o racismo velado.

Outro caso que chocou e mobilizou o movimento negro foi a morte de um menino (em respeito não vou citar seu nome aqui) no Hipermercado Extra. Bom, você deve se questionar: “mas não morre negro todo santo dia? ” Sim, todo dia um jovem negro é assassinado de forma violenta pela polícia e pelo crime organizado, estamos em um país onde a vida do jovem preto não vale mais que um celular usado.

A cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil, temos então uma soma de 63 mortes por dia e 23 mil vidas de jovens pretos perdida por ano no país. Esses não são dados que tirei da cabeça, são dados da ONU que levou para o mundo a campanha “Vidas Negras”, lançada inicialmente no Brasil.

Não temos políticas públicas que integre os jovens à educação, ao trabalho, mas temos políticas excludentes que jogam nossos jovens à marginalidade. Entendo que o estado perdeu a guerra para o crime organizado. Agora faço uma pergunta: como vamos construir um estado justo e igualitário se nossas políticas servem para excluir os já excluídos? Criminalizar e matar crianças, adolescentes e jovens pretos?

Dentro desse cenário penso “Como falar para minha filha que ela é preta? ” Por muitos anos pensei nisso, como falar dessa questão para uma criança, falar que vivemos em uma sociedade que não aceita nossa cor de pele, que nos exclui nos guetos, que nos escravizou e agora nos mata e que ainda vivemos em uma sociedade com a mente escravocrata?

A criança está na fase de descobrir o mundo, está descobrindo e criando seu espaço. O contato com atos racistas é muito pequeno, do ponto de vista da observação da criança, ela ainda não entende por que é diferente das outras crianças brancas, por que ela é sempre a última, por que ela não tem o mesmo tratamento de outras crianças.

Eu como pai, consciente de meu lugar no mundo, sei como a sociedade me trata e como vai tratar minha filha e sobrinhos. Mas por me colocar como preto detentor de mim, sempre pensei que a questão da negritude com minha filha seria algo natural, que ela teria isso herdado de mim e de minha luta, mas não foi bem assim. A construção dela como uma criança e mulher negra foi um processo. Tive um choque durante uma conversa quando a mesma me falou que não se achava negra, mas sim “moreninha”, porque é assim que eles tratam nossas crianças, a criança nunca é tão preta, é sempre moreninha, mulata ou corzinha de chocolate. Nesse momento aprendi que não poderia ser agressivo e falar: “não, você é uma mulher preta e ponto! ”

Construí um dialogo bem aberto e longo com ela, utilizando um tema que também foi importante para minha formação e aceitação como jovem preto. Usei o Hip Hop e tudo que aprendi com essa cultura fundamental para dialogar com a juventude preta e pobre. Construí um diálogo através da música, usando o Rap para abordar essa problemática que eu enfrentava nesse momento. Usei o Hip Hop para dialogar com minha filha, para falar que ela é uma mulher preta e dona de si mesma e que ninguém tem o direito de dizer o contrário.

Mas esse é um trabalho constante, um trabalho de formiguinha. Sempre teremos algo para falar, algo para expor e dialogar com nossos filhos para que eles estejam preparados para enfrentar um país extremamente racista. Hoje ela me enche de orgulho, pela mulher que está se tornando, combativa e dona do seu futuro.

Esta pode parecer uma reflexão vazia, mas é necessário pensarmos como vamos falar para nossos filhos que eles são negros e negras descendentes de escravizados.

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